quarta-feira, 5 de março de 2008

A balada do jogador de sueca. (II)

Longo o hábito de João Brás na exímia arte de bater as cartas. A sua longa e comprovada experiência, e contrariamente a todos os julgamentos que possam existir sobre o tema, nunca foi nem nunca será, por si só, capaz de vencer todos os jogos em que intervém. No entanto, uma coisa parece autêntica. Ao fim do dia, quando se olham para os papéis rabiscados e se fazem os cálculos finais, dá-se facilmente conta que há mais pentes ganhos por João Brás do que por qualquer outro dos rivais. Existe mesmo, entre todos os praticantes que se juntam nas mesas do jardim, a clara e irreversível ideia de que ser um bom jogador de sueca exige uma inata sabedoria ancestral que vai buscar as suas raízes sabe lá Deus onde. Tal sapiência, contudo, não está ao alcance de todos, especialmente dos mais novos que, com medo ou por falta de atrevimento, têm sempre a infeliz tendência de guardar para o fim todos os trunfos que lhe caem em mãos em vez de os colocarem na mesa mal sintam os adversários fraquejar. Segundo Brás, a fibra dos verdadeiros homens sente-se na mesa de jogo e quando estes assumem, com coragem, a hora de destrunfar. E não é raro vê-lo, no calor das discussões tida à mesa de jogo, de sota de trunfo em risque a afirmar para quem o quiser ouvir:
- Os putos de agora são uns maricas! Se foderem como jogam às cartas o mais certo é serem eles os enrabados!
Estas tiradas impulsivas e apimentadas fazem as delícias de todos os que rodeiam a mesinha de metal pintada a verde onde as cartas cansadas pelo uso aterram e se desvendam. Retiram com uma franqueza comovente das bocas desdentadas e de próteses desniveladas daqueles homens o melhor que a vida lhes pode oferecer, uma gargalhada franca e sincera cujo som consegue afugentar, duma só vez, todos os pássaros das árvores.

Já velho e reformado, João Brás sente muito bem que a vida lhe é curta, mas as longas tardes à mesa com os outros conseguem torná-la eterna e brilhante.
Perdera a esposa dum momento para o outro. Beatriz foi sempre uma mulher adoentada e pobre, por isso era de adivinhar que a doença lhe levasse a alma mais cedo do que devia. Com a memória apagada aos poucos pelos cálices sagrados do vinho, João nunca se consegue lembrar com exactidão, quando questionado, se foi o coração ou a diabetes, mas em compensação sabe a data certa do óbito que se deu, cá para nós que fazemos conversa de tudo, há cinco anos. Todos os meses de Fevereiro, em respeito pela efeméride de tão funestas memórias, Brás chega-se á frente e compra um belo ramo de flores que deposita, sentido, na campa da mulher. Uma vez por ano chora e percebe o pouco que tem para oferecer ao mundo. Sente a sua mortalidade e solidão. Chega a casa deita-se e é o único dia em que não bebe uma gota de álcool nem joga às cartas. Não sabe porque o faz, mas sente dentro da sua simplicidade ordinária que é por respeito a alguma coisa que não consegue bem entender.

A reforma que recebe não é nada de especial, mas dá para os seus vícios. O cigarrito feito à mão, o futebol ao fim-de-semana e um copito ou outro de vinho tinto vindo directamente da pipa na tasca “O Carvoeiro”, um estabelecimento sujo e negro onde as baratas se sentem tão confortáveis como os bêbados.
João Brás, além do nome e dos números não escreve mais nada mas, como ele tem honra em afirmar, para se ser homem de verdade não se precisa de ser doutor. Trabalhou durante muito tempo nas obras e viu muitos engenheiros e doutores com muita mania e a saber muito pouco do ofício.
Lavar roupa, encomendar o gás e, acima de tudo, ter de se alimentar são das escassas artes que não domina. Para essas pequenas coisas do quotidiano é que lhe faz falta mulher, mas ninguém está para repartir o leito com alguém com tão pouco para oferecer além de noções complexas dum jogo inventado por surdos e mudos. João alimenta-se então dumas sopinhas de leite ao acordar, do vinho para matar a sede e duma ou duas buchas barradas com manteiga às refeições. Às vezes, quando a sorte o bafeja, e em troca de um ou dois galanteios, a vizinha lá lhe dá meia dúzia de fatias de fiambre que junta à manteiga na hora de fazer as sandes. A carne do porco sabe-lhe bem e fica contente por ter estas oportunidades a caírem-lhe do céu.
Para que a sua alimentação não falhe, fia-se no Matias. Um velho taciturno e de pesados passos que escolhera a vida de padeiro para sobreviver. Na verdade não é bem um padeiro como os conhecemos hoje em dia, mas antes um distribuidor de carcaças. Todas as manhãs acorda bem antes dos galos e lá vai ele, casa em casa, a distribuir o pão pelas maçanetas das portas. Cada cidadão seu cliente, tem todos os dias ao acordar, domingos incluídos, um saco cheio de papo-secos, e para isso só tem de pagar um excesso de 5 cêntimos por carcaça. A conta é junta ao último pedido do mês e escrito a lápis de carvão em números que fazem lembrar a caligrafia dos putos da primária. Nunca se conseguiu imaginar quantas carcaças tem aquele pobre coitado de vender por dia para poder sobreviver, mas graças a ele é que João pode ter pão em cima da mesa todos as manhãs sem ter de ir à padaria. Isso é, sem discussão possível e por muito que pareça obsceno, uma benção enorme na sua miserável vida. No entanto o velho padeiro, faz-se acompanhar a todas as horas, as de domingo incluídas, por um cão pasmacento e manco. Teve o desgraçado do animal o infeliz acaso de ser atropelado a 5 metros do Matias e de ser ele o primeiro a segurar-lhe na cabeça ensanguentada. Este lúgubre acontecimento fê-lo ser o cão do padeiro, e isso fodeu-lhe toda a réstia de esperança de ter um dono fino que lhe pegasse, com sacos de plástico, a sua merda quente depois de cagada. Apesar de estar sempre com cara de adoentado e com o corpo a pesar-lhe nas patas, nunca houve registo de não ter acompanhado o dono, uma única vez que fosse, na esgotante lida diária. Todas as doenças de cão que teve, e não se tenha pudor em dizer que foram muitas, curou-as sozinho enquanto trabalhava. Acordava cedo e sem nunca ladrar fazia-se às ruas, acima e abaixo com o dono a seu lado. O cansaço nunca lhe abandonou o pêlo, e isso era visível a quem por ele passava, razão para que, tirando o dono, nunca recebia festas no lombo, mas tratavam-no sempre como cão e essa era a única alegria que podia tirar da vida além, pois claro, do pão quente que o Matias lhe atirava ao chão às cinco da manhã.

Os longos jogos de sueca marcam as tardes de todos os dias. Começam depois do almoço e acabam quando o sol dá as últimas. Os estóicos vencidos revezam-se sempre que um pente é preenchido e acabam invariavelmente por serem alvos de todos os tipos de apupos possíveis. A coisa por vezes chega tão baixo, que é necessário a assistência intervir, separando à força das palavras, os arruaceiros. Como as equipas são sempre as mesmas, existem ódios duradouros que só param quando alguém morre. O que acontece frequentemente e sem nunca se esperar. Não há, contudo, o homenageante hábito de se assistir ao funeral do próximo, nem mesmo quem, com eles dividia os louros das vitórias. Homem morto é homem reposto e a lista de espera para jogar já vai longa. O parceiro de João Brás chama-se Quim que têm o péssimo hábito de o culpar de todas as derrotas. João não se fica e responde sempre à altura. São raros os casos em que se assiste a um ambiente tão mau no seio duma equipa. Mas tanto João Brás como o Quim não conseguem, contudo, jogar com mais ninguém, embora as ameaças de parte a parte sejam no sentido de a parceria acabar mais dia menos dia.
O vinho, ao contrário da tendência dos mais eruditos, não servia para enaltecer a confraternização, mas antes para atear o ódio entre todos. Quem perdia pagava copos aos outros, e ao fim do dia era raro aquele que não tombava pelos passeios a caminho de casa. Os casados ouviam, já dentro dos respectivos lares, os gritos eufóricos das mulheres que se queixavam porcamente da vida e daquilo que os vizinhos haviam de pensar; os solteiros por seu lado, airosamente prolongavam o dia e em romaria iam jogar à moeda para a tasca “O Carvoeiro” que estava sempre aberta até ao dono adormecer e cair para o chão, nunca se sabendo se por cansaço se por embriaguez.

Os Domingos são gastos de rádio de pilhas na mão a conferir, em directo, os resultados do totobola. Quando o honroso e glorioso Olivais e Moscavide joga em casa, Brás desloca-se até ao campo. Quer perca quer ganhe, o árbitro não sai do recinto sem ouvir mais do que uma vez as suas tão apreciadas vaias. É um homem rancoroso e que não esquece facilmente. Especialmente no que tocava aos maus momentos do homem do apito. Se o pobre desgraçado tiver o azar de assinalar erradamente, por exemplo, um simples lançamento lateral no início do jogo, então há festa até ao fim. Não interessa as vezes que repete as palavras da ofensa, desde que a razão permaneça com ele e o juiz saia do relvado com o orgulho ferido. Aproveita estas idas à bola para, inconscientemente gastar algum do seu dinheiro em sandes de coirato. O cheiro da gordura grelhada ao carvão puxa-lhe pelo apetite e já se sabe como elas sabem, especialmente para alguém que faz da bucha com manteiga a sua dieta diária. Bebe cerveja para empurrar o alimento, mas prefere em muito o vinho, que para além de ser mais barato bate mais forte na alma. As circunstâncias da vida fazem-no pensar seriamente na forma como deve gastar o dinheiro. Não se pode acusá-lo de não saber gerir os seus proveitos, isto apesar de uma ida ao futebol o deixar praticamente nas lonas. É importante para João mimar-se de quando em vez. O futebol ocupa-lhe uma parte considerável do tempo, embora só assistisse aos jogos do Olivais e Moscavide. Às segundas após acordar, tem o hábito de estar horas de totobola na mão a estudar as possibilidades da semana. Não aposta tanto quanto deseja, o dinheiro escasseia, mas sempre tem algum para as duas duplas e a tripla da praxe. Nunca teve muita sorte, uma vez ainda alcançou, a custo, o terceiro prémio. Não lhe valeu de muito, depois de levantar o dinheiro portou-se como um verdadeiro milionário e em menos de duas horas já não tinha nada a não ser uma piela monumental e a certeza de que para a próxima é que era. Mas apesar da legítima esperança, nada aconteceu e na semana seguinte o resultado foi tão desastroso que teve duas semanas sem jogar devido à angústia.
- Parece que fazem de propósito os cabrões, não é que perderam todos - dizia ao Quim enquanto molhava a ponta do lápis e fazia riscos nos resultados falhados.
À medida que os anos passam, desenhava-se no seu pensamento a ideia clara de que o mundo do futebol é um regabofe, e que aquilo tudo é uma cambada de ladrões que ganha rios de dinheiro à custa dos outros. Apesar da destreza intelectual, não muda os hábitos de domingo. Incluiu, como forma de protesto, o senhor da bilheteira no grupo de alvos do seu escárnio. O homem dos bilhetes deixa-o falar e ir em paz, mas desabafava ao freguês seguinte, “Ele que fique em casa, olha que caralho!”
Não se pode dizer que João alguma vez fosse um homem bonito, muito menos que tivesse um mínimo de charme. No entanto teve os seus momentos gloriosos com o sexo oposto. Tirando a mulher, nunca conseguiu comer alguém sem desembolsar o pouco que tinha. Premissa inabalável era o ter de pagar antes de foder. As putas, espertas, não iam em balelas e achavam por bem ver para crer. O romantismo que lhe estava entranhado fazia-o falar das suas relações como se não representassem um negócio entre as partes envolvidas. Tinha-as como conquistas suas, e na verdade era preciso algum jeito para que se deitassem com ele.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A Balada do Jogador de Sueca

Pelo motivo inexplicável de ter bebido muito pouco no dia anterior, facto insólito para quem o conhece nem que seja só de vista, João Brás acordou bem mais cedo do que é costume. A vida que se esforçava por levar não permitia que fosse um madrugador. Também não o desejava. Desenvolveu ao longo da vida suficiente respeito por si próprio para só sair da cama quando não lhe sobrasse sono algum. Ainda há uns dias atrás, em jeito de provocação, desafiaram-no para se envolver profissionalmente no rentável negócio de guardar a vez dos outros na sempre tão concorrida fila do centro de saúde. O trabalho nem era complicado, consistia em estar à porta do Centro a partir das seis da manhã e marcar, quando chegasse ao guichet, uma consulta para algum necessitado. Desde que morrera a D. Elvira que mais ninguém pegou no biscate, nem sequer as eternas invejosas de que muito se queixavam da legitimidade do negócio, chegando mesmo a fazer algumas denúncias anónimas na polícia, embora sem o sucesso desejado. Os valores eram sujos, chegou-se mesmo a falar em três contos por consulta marcada para o próprio dia. Mas havia quem não pensasse duas vezes, principalmente a desgraçada da D. Engrácia, que em tempos difíceis pariu 4 filhos, todos eles frangalhotes e que volta e meia apareciam com um vírus novo. Alguns curava-os o tempo, outros nem a própria médica os conhecia. A pobre da Engrácia, que muito labutava para que houvesse sempre pão e sopa sobre a mesa, tinha o infortúnio do patrão ser pior que os animais e de não a deixar faltar, nem pelo mais forte dos pretextos. Cada minuto fora equivalia a uma hora descontada do ordenado, e não havia mas…ou se contentava com o que tinha ou então era substituída por outra que se submetesse com agrado e bons modos ao mesmo.

Era desta forma que, nestes conturbados tempos de modernidade económica, em que os homens mais parecem bichos, que a D. Elvira fez a sua fortuna. Conseguia mesmo ganhar quase outra reforma em meses de grandes calamidades. O que nem sequer era difícil, tendo em conta as variações de temperatura e a fragilidade dos novos rebentos.
Com o dinheiro arrecadado, rapidamente alargou o negócio para a agiotagem. A desamparada da Engrácia, aflita com tantas contas para pagar, era também aí a sua melhor cliente. Os juros não eram muito altos, mas seja como for, o que ganhava nos seus negócios dava para oferecer aos netos tudo aquilo que os molengas dos filhos não lhes podiam comprar.
Elvira era uma velha rija e nunca se assustou com quem não lhe queria pagar. O seu vizinho, toxicodependente por descendência, fazia questão de ser o cobrador, desde que, evidentemente, tivesse algum proveito pela sua inquestionável boa vontade. Aproveitava-se do seu nome, manchado pelas ruelas, para servir como método de persuasão. Fazia-o, no entanto, mais para perpetuar o nome da família do que propriamente pela velha, mas desde que decidiu ajudar Elvira, droga foi coisa que nunca lhe faltou. Mas, e apesar do escritor estar a gostar, chega de falar da Elvira deixando apenas o altruísta desejo que Deus lhe tenha a alma em paz.

João Brás, após o calmo despertar e como era seu apanágio, apalpou calmamente o seu abono de família. Contrariamente à sua vontade, não sentiu grande desenvoltura nele e por essa razão desistiu de se tocar. Por vezes, quando os despertares eram bafejados pela intervenção divina, ainda conseguia masturbar-se, mas a tendência, e apesar dos seus contínuos esforços era para, mais dia menos dia, deixar-se dessas aventuras. Tinha a consciência que o tempo das alvoradas gloriosas lhe passara por entre as palmas das mãos, mas ficava contente se uma vez por mês tivesse motivos sólidos para se contentar.

Acendeu a televisão e ficou a ver o programa matinal. Sempre o mesmo. Velhas chorosas pela reforma que não se esticava e que entravam em concursos da treta para poderem multiplicar o seu pecúlio. Na maioria das vezes conseguiam, apesar de nem sempre as perguntas serem fáceis.
- Então diga lá minha senhora qual é a capital de Espanha…
A velha coitada, lá dizia do outro lado da linha uns ais para ganhar tempo enquanto esperava uma revelação divina. A apresentadora, cheia de boa vontade, tratando as velhas concorrentes como filhos lá ajudava.
- Vá eu vou dar uma ajudinha…Ma…Ma…Ma…
E a velha nada…
- Ma…Ma…Ma…
E derepente a luz:
- Ma…Ma…Marcelona!!!!

João nunca tinha vontade de fazer o pequeno-almoço, isso apesar da fome acordar bem antes dele próprio. Dava muito trabalho e tudo o que desse trabalho era alvo de desinteresse. Esperava assim até ao meio-dia, lá para a altura em que a sirene dos bombeiros soava pelos céus quer fizesse chuva ou sol, e juntava-se aos outros coitados que dividiam a panela de sopa no Centro de Dia. Era uma vida de merda, ele sabia-o, mas pouco importava. Era o preço que tinha de pagar para ter acesso à sua grande paixão de barriga cheia. As cartas. Não as 52, como os baralhos inteiros vindos da China têm, mas apenas 40, dez de cada cor como mandava a tradição e o hábito.
Era então por isso, sempre que se sentava no banco do jardim e era anunciado o trunfo depois de lhe darem as suas dez cartas, que meus amigos, o mundo calava-se e apreciava maravilhado a sua arte.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Horoscopo

Hoje vai ter um dia igual ao de ontem e também igual ao de amanhã.
É muito provável que não se apaixone, não tenha sexo ou qualquer outra manifestação de carinho.
Vai-se sentir deprimido(a) quando olhar para o seu saldo bancário e começar a subtrair a esse numero as despesas que ainda vai ter.
Não lhe vai surgir nenhuma oportunidade de negócio.
Por outro lado, também não vai comprar nenhum artigo dos panfletos da Media Market.
O fim-de-semana vai ser gasto atrás dum volante e a percorrer centros comerciais.
Vai consultar muitas etiquetas de preços na desesperante busca da prenda perfeita.
Vai registar um euromilhões e vai ter uma conversa sobre o que faria se a sorte lhe abencoasse a vida.
Está frio e as luzes do Natal já não lhe despertam a esperança.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Funcionario (3ªParte)

Na estação as pessoas escapam-se à chuva encostando-se à parede hirtas e amuadas como soldados numa parada militar. Estão com os sapatos molhados e sentem a humidade a lamber-lhes a carne fria. Tentam aquecer-se encolhendo os dedos e soltando ar quente da boca para as palmas das mãos. A condensação desenha balões de banda desenhada no ar que depois desaparecem por entre o silêncio das tosses e das escarras verdes que são lançadas ao cimento. Cheira a ferro e uma voz imperceptível indica a linha em que parte o comboio.
As tuas manhãs são cronometradas ao segundo e obrigam-te a olhar para o relógio do telemóvel uma vez a cada 5 minutos. Sabes que, se acordares às 7:15 podes, depois de tomares banho e comeres o pequeno-almoço, apanhar o comboio das 8:15 para chegares ao metro às 8:45. Deste modo estás habilitado a picar o ponto entre as 8:55 e as 9:00. É sem dúvida uma manobra arriscada, ainda para mais quando tens a consciência que qualquer atraso que ultrapasse os 5 minutos equivale a um corte salarial. Em casos excepcionais, como uma avaria nos transportes ou uma greve, a benevolência é maior e nada te é descontado, desde que o atraso seja justificado com uma declaração a comprovar tal vicissitude. Para conseguires essa declaração vais ter de passar uns bons 30 minutos numa fila formada por outros trabalhadores, também eles, necessitados do mesmo. A espera é silenciosa e cansativa e termina quase sempre contigo a desistir e a preferir perderes 5 euros do que te submeteres a tão humilhante espera.

Declara-se que, para os devidos efeitos, no dia ___/___/___ entre as ____ horas e as ____ horas a circulação de comboios esteve interrompida pelo motivo de ______ .
O Funcionário:


A necessidade dum comprovativo como este é um bom indicador quanto ao apreço que os teus superiores têm por ti e também à débil posição que ocupas neste rodopio económico e social a que chamam carinhosamente de globalização. Na fila para o guichet, onde funcionário preenche à mão os espaços deixados em branco como se fossem parte dum teste de língua estrangeira, sentes-te sempre mais emotivo e cresce em ti uma vontade quase incontrolável de chorar. Escondes os teus olhos húmidos olhando para os sapatos velhos e de má qualidade que envergonhadamente calças.

O comboio chega e os passageiros tomam as suas posições na beira da plataforma de embarque. São posições estudadas e marcadas na memória desde o primeiro dia em que pisaram esta estação. Todos sabem que, se estiverem em determinada posição na altura em que o comboio pára, terão a possibilidade de estarem mesmo no centro de uma das portas da carruagem podendo, desta forma, entrar primeiro que os outros e assim habilitarem-se a um dos três ou quatros lugares sentados disponíveis. Terão de ser lestos e astutos e o uso da força poderá ajudar a desequilibrar os concorrentes, dando uma vantagem importante a quem ela recorrer. Quando as portas se abrem, os passos apressam-se e quem consegue o assento tem motivos para ficar feliz. Afinal, vão ser poucas as alegrias sentidas ao longo do dia entre fotocopiadoras encravadas e toques incessantes de telefones. A ti João, habituado que estás a ser ultrapassado a toda a hora, resta-te ficar de pé e esperar que esta viagem de 30 minutos não demore muito a passar.
Fechas os olhos com força, respiras fundo e ficas a sentir o movimento.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

O Funcionário (cont.)

O caminho que te leva até à estação dos comboios é um emaranhado de ruelas secundárias assombradas pelo betão dos prédios de 10 andares que, virados uns contra os outros, assumem o orgulho e a rigidez de peças de xadrez prontas a serem jogadas no início de qualquer partida. Fazes o trajecto de 10 minutos em passos curtos e cansados enquanto os teus olhos se colam, com desalento, no alcatrão molhado onde reparas, sem o querer, nos pacotes de maços de tabaco amachucados e nas folhas de jornais gratuitos a voarem como anúncios de verão nas rédeas duma avioneta.
“Portugueses perdem poder de compra”

Nada do que possas ver por aqui te traz uma recordação de infância ou de felicidade capaz de te confortar nesta manhã de chuva. Nasceste noutro subúrbio, noutro bairro e, desde que te mudaste para a casa que compraste nesta periferia da cidade, deixaste de poder ouvir as vozes dos teus vizinhos a desejarem-te os bons dias e a perguntarem, curiosas, pela tua família. Sabias bem, na altura, os seus nomes, tanto os próprios como os apelidos e todos reclamavam, com alguma vaidade, que andaram contigo ao colo ainda eras tu um bebé.
Lá no bairro onde moravas e cresceste, as vidas das pessoas cruzavam-se em vários pontos como se cruzam nos argumentos dos filmes. As mães dos teus amigos trabalhavam juntas na mesma fábrica e os filhos delas estudavam todos na mesma escola. Por isso é que, quando alguém fazia anos, havia festa e todos eram convidados para comer gelatina e pudim instantâneo. Mas se, por outro lado, a desgraça viesse, não vinha só para alguns, como no dia em que a fábrica dos alemães fechou e a vida no bairro se tornou cinzenta e angustiante e poucas eram as famílias que tinham motivos para poderem dormir descansadas. Nesse bairro que cresceste, por entre aquelas ruas com nomes de médicos e revolucionários, estão guardadas as tuas melhores recordações. Na rua Dr. Egas Moniz, para desespero da tua mãe, o buraco que te fez cair e levar 5 pontos no joelho. Na Dr. Patacão a porta do armazém que fazia de baliza nos jogos de futebol e na Dra. Maria Rosário o vão de escadas onde acabaste o teu primeiro namoro. Não é de estranhar que, cada vez que lá vais visitar os teus pais, te sintas mais leve que no resto dos outros dias. Isto porque te recordas de coisas que te permitem ter uma história e um passado digno de ser lembrado. Existe, naquelas ruas, um sentimento de protecção tão grande que a falta dele te deixa desiludido e amargurado. Como hoje, por exemplo, enquanto caminhas para a estação por entre prédios cujas janelas não apanham sol o ano inteiro. Não existe ninguém que passe por ti e te pergunte como te sentes ou como vai andando a vida. Ao invés, os olhares procuram esconder-se no alcatrão e nas beatas agrupadas nas esquinas das sarjetas. As vossas vidas tocam-se apenas nos momentos em que lêem, com desconforto, as mesmas notícias nas páginas dos jornais que são sopradas pela corrente de ar resultante duma má arquitectura urbanística.
“Portugueses endividam-se mais.”

É nestas ruas sem história que escreves a tua biografia de homem adulto. Uma história com poucas páginas e com a letra irresoluta como a dos grafittis por baixo das janelas do rés-do-chão.
Hoje é um dia em que chove e faz frio e foi azar um dia como este não ter caído ao fim-de-semana. Podias ter ficado na cama a ouvir as gotas da chuva a bater na persiana sem te preocupares com o momento em que o despertador te dá a conhecer as notícias do dia. A subida das taxas de juro, do preço do barril do petróleo ou a divulgação dum estudo pouco abonatório para o futuro de Portugal. Podias até chegar perto da tua noiva e enroscares-te nela de forma a teres uma erecção. Mas em vez disto tudo, tens 10 minutos para chegar à estação e apanhares o teu comboio. E se, por alguma razão, não o conseguires, já sabes que vais ter uma hora descontada no teu salário no mês que vem.
Não era, portanto, má ideia começares a pensar em acelerar o passo.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Check-list

No alto da minha douta sapiência e inigualável experiência de vivre, pensei em partilhar, com qualquer um ou outro interessado, algumas breves reflexões sobre o elevado tema das relações humanas, sua falta ou sua abastança, de uma forma incoerente embora séria. Começarei por uma prática.

Check-list de móbiles de pormenor para manter aparte qualquer hipótese de relacionamento mais íntimo com alguma namorada mais afoita e que na sua cegueira o acosse e para a qual procure justificação para interromper com a coisa de forma circunspecta e fundamentada (parte I)

demasiado 'nova', demasiado 'baixa', anda sempre na lua, não suficientemente morena, demasiado louca, demasiado deprimida, insuficiente destreza de língua, cheiro sem sex-appeal, falta de espírito de aventura, falta de poder de encaixe, falta de mamas, um bocado totó, não lê ou adora Paulo Coelho ou Dan Brown e acha que o Harry Potter é para miúdos, acha que é mesmo diferente das outras, não percebe a ponta dum corno do que me vai pela cabeça, muito sensível, com mania de intelectual, muito nervosa, um pouco neurótica, bebe demais, não bebe, é muito esquecida, não conduz, não anda de bicicleta, tem medo dum bocado de lama, não veste assim tão bem, falta-lhe à-vontade, pouco carinhosa, não deslarga, enjoa na estrada, um pouco 'encorpada' a mais, alguma polpa a menos, falta de vivacidade no olhar, postura algo incerta e despersonalizada, apenas réstias de lascívia, não passa sem isto ou sem aquilo, hoje quer assim amanhã apetece-lhe assado, um bocado parecida com a mãe, o nariz e as orelhas são do pai, nunca lhe faltou nada, já 'sofreu' tanto, não pratica desporto, ficava-lhe melhor cabelo comprido, ficava melhor ruiva, maneira de falar amasculinada mas sem ser sexy, borbulhas estranhas, é borderliner, usa acessórios foleiros, não sossega um instante, esquece tudo, é vegan, só usa ténis, não sabe para que serve o shift, é 'tão' espiritual, tem os pés feios, é 'amiga' de todos, não gosta de estar com ninguém, fica a remoer, só pode comer disto ou daquilo, está sempre com frio, 'não vive sem amor', lava os dentes às vezes, bebe café com açúcar e despreza quem fuma, quer fazer uma pós-graduação em psicologia ou 'ciências' do comportamento, não gosta lá muito de filmes de terror ou não se lembra de ter visto algum do David Lynch ou um dos filmes da sua vida é o Pearl Harbour, não se parece com a Kate Beckinsale nem com a Rebecca Romijn, atormenta-se com a celulite, é bué da new-age, abusa do lib-gloss, inventa cenas, produz, interpreta em palco, atira os foguetes e faz a critica, atrai as melgas e mosquitos, não simpatiza com gente 'esquisita', falta-lhe je-ne-sais-quoi, assim não que me despenteia, tem a certeza que Deus existe, comprou o último cd à dois anos, em promoção, esquece-se de pagar a conta a meias, abusa um pouco da palavra eu eu, nega à partida uma ciência que não conhece, não inclina o pescoço no ângulo correcto...

Como certamente perceberam, o texto é de facto muito bom mas não é meu. Quis o destino que o meu grande amigo, Paulo Rinhonha assinasse uma participação neste blog.
E assim foi feito. Um dia ainda terá a fama e glória.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O funcionário

Só para que conste, este é apenas mais um dia da pior semana que a tua memória é capaz de se lembrar.
Acordas de manhã e ouves a chuva a bater forte na persiana da janela do teu quarto. Antes de te levantares da cama para ires trabalhar, já sabes que os quinze minutos que te separam da estação de comboios vão ser gastos na tentativa de te abrigares no único chapéu-de-chuva que compraste na vida. Um pequeno e desdobrável que não vale a ponta dum chavo e que continua ferrugento e torto como sempre o conheceste. Não vais conseguir grande coisa com ele e, ainda deitado, consegues perceber que vais ter um dia de merda. Advinhas, sem esforço, a água a ensopar todas as tuas roupas e o frio do Inverno a fazer-te tremer até ficares exausto.
Isto tudo ainda antes de apanhares o teu comboio para a cidade.

Levantas-te da cama quente e repetes a palavra foda-se tantas vezes que soa como se fosse parte de uma reza. Arrastas os pés pelo chão frio e começas a espirrar com força. Quase que sufocas com o teu próprio ranho que vais limpando à manga do pijama até chegares á casa de banho onde te assoas como deve ser.
Ouves com demasiada clareza o som da urina da tua vizinha de cima a bater na água da sanita. Esse som repetitivo e constante traz consigo uma imagem que te obriga a respirar fundo três vezes seguidas antes de te confrontares com a certeza de que a recordação mais forte que tens da Sra. Lurdes é mesmo esse som. Cresce em ti a convicção que te vais lembrar deste pensamento sempre que a Sra. Lurdes passar por ti e te desejar os bons dias ou te segurar a porta do prédio quando tens as mãos ocupadas com as compras do mês.
Quando entras na tua própria casa de banho fazes o esforço natural para que a força da gravidade no teu mijo passe despercebida, evitando que a tua vizinha tenha um sentimento recíproco quanto às recordações que possa guardar de ti.

Vais ter agora de fazer a barba e essa obrigação faz-te dizer mais asneiras. Fechas os olhos com força ao mesmo tempo que inspiras e expiras fundo. Prometeras com alguma ingenuidade que irias tratar disso ontem à noite, mas a preguiça apagou-te essa informação do cérebro. Abres a torneira e esperas que a água aqueça, mas lembras-te que deixaste o gás fechado e vais ter de caminhar até á cozinha para o ligares. Fazes lento o trajecto e tentas ligar o esquentador com um movimento displicente que não resulta obrigando-te a repetir todo o processo de ligação. Olhas para o lava-loiça e reparas que também não lavaste o que tiveras prometido lavar, mesmo que essa promessa fosse apenas para continuares deitado no sofá a ver sem interesse um programa de televisão. Voltas para a casa de banho com a mesma vontade que a abandonaste e interrogas-te se o facto de ouvires o mijo dos vizinhos tem alguma coisa a ver com a qualidade da construção do prédio.
Esperas que a água aqueça e quando finalmente lhe sentes o calor, molhas uma toalha que levas à cara. Demoras-te com ela na face porque aquela temperatura deixa-te uma sensação boa por todo o corpo e faz-te desejar não sair de casa o dia todo. Repetes várias vezes o movimento até ficares certo que os poros já estão devidamente abertos, embora sabendo que, faças o que fizeres, vais acabar por ficar com a pele irritada e marcada com pequenos cortes que te vão dar um aspecto repugnante ao olhar dos outros.

Encaras a tua figura no espelho e acusas o tempo que passou desde a última vez em que te olhaste com vaidade. Esqueceste facilmente quem eras quando compravas roupa de marca para sair à noite com os amigos e passavas, na altura, uma pequena eternidade nas lojas da baixa a escolher calças que te salientassem as pernas e camisolas que caíssem sem mácula nos ombros. Estes momentos são tão velhos que sentes pena de não recordares a última vez que isso aconteceu.
Esqueceste também as vezes em que, depois de tomares o teu banho, ouvias música a altos berros e dançavas ao som dela enquanto te vestias e te sentias feliz por estares convencido de que todos os teus sonhos poderiam ser alcançados com um mero estalar de dedos. Acreditavas tanto nas tuas capacidades que nem eras capaz de te imaginares num futuro. Eras o teu próprio presente e era confortável não ter um passado magoado e ferido a atirar-te merdas à cara todos os dias. Merdas que doem tanto como o ardor que sentes no pescoço por teres uma pele sensível que não consegue aguentar a porra duma lâmina a passar-lhe por cima duas ou três vezes seguidas.
Saltas para a banheira a tremer de frio e ligas a água que já vem meio quente. Deixas que ela escorra sobre ti e o calor que sentes sabe-te muito bem. Fechas os olhos e pensas que merecias que este momento durasse o dia todo. A água a cair sobre ti e a aquecer o teu corpo nu. Merecias também dormir mais oito horas e mais oito a seguir a essas oito. Merecias mesmo que o génio das vontades batesse à porta e te concedesse 3 desejos que pudessem ser renovados a cada quinze dias. Mas agora, o que querias mesmo, era voltar para a cama e dormir profundamente com o teu corpo quente e relaxado.
Ficas tanto tempo debaixo do chuveiro que só te dás conta disso quando o ar se torna difícil de respirar. Fechas a água e a pequena casa de banho é um nevoeiro rarefeito que embacia todos os azulejos brancos quebrados com o tempo. Podes contratar o melhor pedreiro, utilizar os melhores materiais à venda no mercado que o tempo fá-los sempre quebrar. E a ti também. Também foste quebrado pelo tempo e infelizmente já passaram todos os anos a que a garantia dava direito. Agora és uma imagem sem interesse e sem uma história digna de nota que mereça ser contada. Claro que, ainda assim, tens a plena consciência de que foste abandonado por ti próprio. E, mais uma vez, deixaste fugir da memória o dia em que te abandonaste pela primeira vez.
O vapor permite que continues aquecido mais uns segundos, o suficiente para que te possas vestir com a roupa que deixaste no puxador da porta. Tentas ser o mais lesto possível mas não evitas ficar com pele de galinha e começas a tremer.

Tomas o pequeno-almoço devagar e sem pensar em nada a não ser o que te espera no trabalho e na vontade de voltares à cama. Respiras fundo três vezes e engoles mais uma colherada de Corn Flakes. Olhas para um panfleto de hipermercado e consultas as promoções da semana. Deixa-te ansioso o pensamento que amanhã, à mesma hora, estarás sentado nessa mesma cadeira de cozinha, a olhar para o mesmo panfleto e a pensar nas mesmas coisas. Respiras fundo mais três vezes.
Enquanto comes, vais ouvindo o som dos passos dos teus vizinhos a sair dos elevadores e a baterem com as portas. Quando olhas pela janela para a rua vês os lugares de estacionamento a ficarem vazios.
Acabado o pequeno-almoço, lavas os dentes, pegas no saco de lixo que deita um cheiro a podre e sais de casa tão cansado como quando chegaste no dia anterior. Chove imenso e as tuas piores previsões confirmam-se. Antes de te pores a caminho, uma pequena gota entra-te pelas costas fazendo-te sorrir enquanto murmuras: “Claro”. É tão fácil, por vezes, adivinhares o que a vida te reserva...
O teu nome é João Silveira e esta é apenas mais uma manhã na tua vida de que te vais esquecer tão rapidamente como todas as outras.